NFT: como a tecnologia pode contribuir para a produção artística

NFT e o mercado da Arte

O volume de transações com a criptomoeda Tezos e o seu valor a cada segundo não são mais apenas dados estatísticos disponíveis para investidores interessados nesse novo mundo financeiro. O que isso tem de relação com NFT? Confira:

Com base nessas informações de mercado, o artista da computação Alexandre Rangel, de Brasília, criou a obra de arte Tezos Dynamic Portrait, um software que imprime ritmo, formas e cores de maneira dinâmica, que nunca se repetem, ao sabor dos ventos da cotação dessa moeda digital.

Até alguns anos atrás, esse tipo de arte só teria espaço em uma galeria, exposta em um telão ou computador — e, caso vendida, não haveria como o artista comprovar a autenticidade do quadro.

Desde 2017, porém, vem crescendo vertiginosamente uma nova tecnologia que garante a veracidade da obra de arte em sua plenitude, provocando uma espécie de renascimento. Estamos falando do NFT, sigla em inglês para Non-Fungible token, ou token não fungível, em português. Ao contrário de uma moeda de R$1, que pode ser trocada por duas de R$ 0,50, por exemplo, cada NFT tem um valor único, e não pode ser substituído.

O sistema só funciona devido ao blockchain, um código em cadeia formado a partir de cálculos matemáticos para garantir a autenticidade das informações em transações. Imagine que o blockchain seja como um livro caixa digital que, a cada transação realizada, todos podem enxergar o acréscimo de novos dados e validá-los; se alguém mudar uma informação, todo mundo saberá. Foi com essa tecnologia que nasceu, em 2008, o Bitcoin, a primeira criptomoeda. Os códigos das moedas digitais são a espinha dorsal do NFT, e por isso obras que usam a tecnologia são chamadas de criptoarte.

Não é possível precisar quem foi o primeiro a dar a largada nessa invenção, mas em 2017, Matt Hall e John Watkinson, do estúdio de jogos Larva Labs, nos Estados Unidos, criaram 10 mil personagens colecionáveis em imagens de 24 x 24 pixels geradas por algoritmos, numa série batizada de Cryptopunks. Todos os desenhos já foram vendidos, mas no mercado secundário, é possível encontrar quem os ofereça por até US$ 7,5 milhões.

O frisson em torno das obras de arte digitais é tão grande que a corretora de criptomoedas Binance, uma grande bolsa de valores de moedas digitais nas Ilhas Cayman, lançou em junho sua plataforma de arte NFT, a Binance NFT. Prometendo uma “Renascença Digital”, a ideia inicial é leiloar obras da coleção Genesis, que incluem produções do gabarito de Divine Comedy: rebeget, de Salvador Dalí, e Three Self-Portraits, de Andy Warhol.

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Da mesma forma, outros meios têm sido criados mundo afora para expor e vender obras de arte digital, como as estrangeiras Opensea, Nifty Gateway, Superrare e Pixeos, além das brasileiras Hic et Nunc e Phonogram.me, esta exclusiva para músicas e que começou a operar em junho. Até o Youtuber Felipe Neto entrou esse mercado, com o lançamento no início de junho da 9block, plataforma de comercialização de NFTs. Não é para menos: só no primeiro trimestre de 2021 foram realizados negócios no valor de US$ 2 bilhões em NFT, um volume 20 vezes maior em relação ao quarto trimestre de 2020 e 131 vezes acima do mesmo período do ano passado, segundo dados do site especializado Nonfungible.com.

Os exemplos que têm ganhado destaque na mídia impressionam. O CEO do Twitter, Jack Dorsey, transformou em NFT seu primeiro post na rede social, que foi vendido por US$ 2,9 milhões. Em março de 2021, o norte-americano Mike Winkelmann, cujo nome artístico é Beeple, embolsou US$ 69 milhões pela obra em Everydays — The First 5000 days, uma colagem que ele vinha produzindo diariamente desde 2007. Inclusive, esse foi o primeiro leilão de arte digital realizado pela tradicional casa de leilão britânica Christie’s — que em maio foi palco de outro arremate histórico: nove Cryptopunks raros foram leiloados por nada menos que US$ 17 milhões.

No final de junho, a empresa global de arte Sotheby’s, sediada em Nova York, leiloou quatro documentos de Tim Berners-Lee, programador que criou a internet: as 10 mil linhas do código-fonte da world wide web foram vendidas por US$ 5,4 milhões. Berners-Lee concebeu esses códigos entre 1989 e 1991 e nunca os patenteou. Agora, com a venda desses documentos por NFT, foi a primeira vez que o britânico teve lucro com sua invenção. “O NFT veio para ficar. A gente nem imagina qual será o futuro. Mas será cada vez mais forte e constante a mudança”, analisa Alexandre Rangel.

Um mundo de possibilidades
Para além das cifras milionárias, as transações realizadas por meio de criptomoedas para vender obras de arte estão garantindo a sobrevivência de muitos artistas que sofrem os impactos do distanciamento social em decorrência da pandemia de Covid-19. O brasiliense autor de Tezos Dynamic Portrait é um deles. “Em 30 anos de produção, eu não havia vendido nada, agora já posso vislumbrar a arte como uma fonte de renda estável”, diz Rangel, que está pagando suas contas graças à venda de obras de arte digitais em NFT.

O artista carioca Marlus Araújo também está explorando as funcionalidades dessa tecnologia. Com 24 obras lançadas na plataforma brasileira Hic et Nunc, ele guardou as moedas digitais obtidas com as vendas para negociar um terreno” no metaverso Cryptovoxels, um mundo virtual onde é possível passear e construir prédios em três dimensões. Lá, ele já vendeu um espaço de 70 metros quadrados para adquirir outro de 143 metros quadrados por 16 metros de altura pela cifra de us$ 4 mil. Seu objetivo é erguer um prédio de quatro andares, o Museu.xyz.

Nesse espaço virtual, que é feito de blocos como no jogo Minecraft, Araújo realizará exposições de arte em NFT, eventos e shows. Ele cursa pós-graduação em Mídias Criativas na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e a inauguração do seu museu ocorreu em um evento da instituição. “Como quero ver a expansão do metaverso, quero criar um centro cultural e convidar amigos artistas. Vou promover eventos e alugar esse espaço, além de tentar encaixar eventos mensais e semanais e trazer coisas mais palpáveis para os NFTs”, explica.

Outra vantagem dos códigos de NFT é que eles podem ser usados como um token utilitário, permitindo ao comprador uma série de benefícios, seja dentro de ambientes virtuais como um metaverso, seja no mundo físico. No caso do mundo virtual, a empresa norte-americana Atari criou uma divisão especialmente para desenvolver jogos, personagens e enredos de games usando o NFT da rede blockchain Ethereum. Nesse caso, o token se transforma em um elemento único e exclusivo do jogador que o comprar. Outro exemplo pode ser encontrado na própria arte. Um colecionador de arte digital poderia usar o código da obra para abrir funcionalidades no site de artistas, como vídeos exclusivos, textos, fotos e promoções.

Mesmo o universo da música está entrando nessa nova era. É o caso da plataforma brasileira Phonogram.me, cujos primeiros leilões ocorreram com a venda de ingressos vitalícios de festivais. “O viés mais vantajoso da música em comparação às artes visuais é o som, não dá para pendurar uma música na parede. Por isso, foi legal começar nosso leilão vendendo ingressos de shows”, afirma Janara Lopes, designer e cofundadora da plataforma. “Queremos envolver o fã e colecionador mesmo se ele não tiver contato com o mundo cripto. ” A Phonogram.me criou o Phono, uma moeda própria que permite negociações por PIX, sem a necessidade de comprar moedas virtuais. Embora tenha sido criada a partir dos códigos da criptomoeda Ethereum, seu lastro é o Real.